DRE, Receita, Custos Fixos e Custos Variáveis (parte 3)

15 de julho de 2008

CONTEÚDO

CUSTOS FIXOS

Os custos fixos não dependem do volume de produção, portanto, produzindo muito ou pouco, as empresas têm esses custos inevitavelmente. No caso do comércio Cheiroso ltda, os custos fixos são o aluguel e a folha de pagamento. A receita de vendas no mês de junho/08 foi de R$ 30.000,00. Se no mês seguinte as vendas caírem drasticamente e a receita for de, por exemplo, R$ 5.000,00, o aluguel e a folha de pagamento continuarão sendo de R$ 600,00 e R$ 2.500,00, respectivamente (eles podem até sofrer reajustes, mas que não estão relacionados com o nível das vendas). Se por outro lado as vendas estourarem e a receita for de R$ 100.000,00, o aluguel e a folha de pagamento também terão os mesmos valores.

Vamos supor agora que exista um outro comércio que trabalha com os mesmos produtos e os mesmos preços de aquisição e venda. Porém, o ponto fica em uma área nobre, cujo aluguel é R$ 3.000,00. Além disso, a folha de pagamento também é maior, de R$ 5.000,00. Se o mês de julho/2008 for um mês fraco em vendas e cada loja vender apenas 30 unidades de cada produto, a DRE de cada comércio será como mostrado abaixo (os preços são mostrados na parte 2 do artigo).

DRE julho 2008 (R$)
A B
receita bruta 4.800,00 receita bruta 4.800,00
(-) impostos diretos (1.200,00) (-) impostos diretos (1.200,00)
(-) comissões vendas (240,00) (-) comissões vendas (240,00)
(=) receita líquida 3.360,00 (=) receita líquida 3.360,00
(-) CMV (2.700,00) (-) CMV (2.700,00)
(-) despesas (3.100,00) (-) despesas (8.000,00)
(=) LAIR (2.440,00) (=) LAIR (7.340,00)
(-) IR 0 (-) IR 0
(=) prejuízo (2.440,00) (=) prejuízo (7.340,00)

Cabe aqui uma ressalva. Sem dúvida, o negócio instalado em uma região mais nobre normalmente teria preços também maiores. Neste exemplo considerei preços iguais apenas para destacar o efeito dos custos fixos nos resultados das empresas.

Como os preços e os custos de aquisição são os mesmos, a diferença no resultado de cada negócio está nos custos fixos. O prejuízo maior do negócio 2 se deve ao fato de ter maiores custos fixos. O IR é zero nos dois casos porque houve prejuízo (LAIR < 0). Este exemplo serve para ilustrar que os custos fixos são um fator de risco para as empresas. Um negócio que tem altos custos fixos, comparados aos de outros negócios do mesmo ramo, terá maiores dificuldades em períodos de vendas baixas.

Pode-se dizer que os custos fixos foram responsáveis pelos prejuízos, pois é fácil perceber que os custos variáveis (CMV) se reduziram na mesma proporção das receitas.

É preciso considerar que os custos fixos não são necessariamente vilões. Não é porque uma empresa tem custos fixos maiores em relação a outra do mesmo ramo que terá piores resultados. Voltando para o exemplo acima, o negócio instalado em área nobre pode se aproveitar da localização privilegiada e adotar maiores preços em relação ao outro e mesmo assim vender mais. Além disso, o maior custo da folha de pagamento pode ocorrer em função de ter em seu quadro de funcionários pessoas mais bem qualificadas, capazes de gerar mais e melhores vendas.

Os custos fixos que representam ganhos competitivos são benéficos e aqueles que não representam ganhos competitivos são pesos mortos e reduzem o potencial de lucros.

CUSTOS VARIÁVEIS E MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO

Diferentemente dos custos fixos, os variáveis acompanham o ritmo de produção, portanto, em momentos de baixa nas vendas, estes custos também se reduzem. Na indústria, esses custos são representados essencialmente pelas matérias-primas e a mão-de-obra dos funcionários que trabalham diretamente na produção (operários e supervisores). No comércio, esses custos são representados pelo custo de aquisição das mercadorias revendidas. No setor de serviços esses custos são representados pelos materiais utilizados no atendimento (isso de um modo geral, podendo ser muito mais complexo nos casos concretos).

Há também as despesas variáveis, que variam normalmente de acordo com o volume de vendas. As principais são as comissões de vendas e os impostos diretos. Como pode ser observado no exemplo dos comércios de perfumes e shampoos, essas despesas, descontadas da receita bruta, acompanham o volume de vendas. Quando as vendas caem, essas despesas caem na mesma proporção. Quando as vendas aumentam, também aumentam na mesma proporção.

A margem de contribuição (será aqui chamada MgC) é basicamente a diferença entre a receita gerada por um produto (ou conjunto de produtos) e seus custos e despesas variáveis. Ela é uma medida do quanto esse produto (ou conjunto) contribui para a geração de lucros. A margem de contribuição pode ser total, quando calculada sobre um volume negociado durante um período, ou unitária, quando calculada para cada unidade de produto.

Para ilustrar o conceito de Margem de contribuição, vamos retomar o desempenho no mês de junho/2008, mostrado na parte 2. As tabelas abaixo exibem novamente as quantidades de cada produto vendidas no mês e a DRE.

A - vendas junho/2008
produto preço compra preço venda qtde vendida
perfume A R$ 10,00 R$ 25,00 400
perfume B R$ 50,00 R$ 80,00 120
shampoo A R$ 10,00 R$ 20,00 240
shampoo B R$ 20,00 R$ 35,00 160
A - DRE jun/2008 (R$)
receita bruta 30.000,00
(-) impostos diretos (7.500,00)
(-) comissões sobre vendas (1.500,00)
(=) receita líquida 21.000,00
(-) custo das merc vendidos (15.600,00)
(-) despesas (3.100,00)
(=) LAIR 2.300,00
(-) IR (920,00)
(=) lucro líquido 1.380,00

Vamos calcular primeiramente a margem de contribuição total do conjunto de produtos vendidos no mês de junho/2008. Para isso, tomamos a receita total gerada e descontamos as despesas e custos variáveis. As despesas variáveis são, neste caso, os impostos e as comissões. Os custos variáveis são o CMV. A tabela a seguir mostra a margem de contribuição total do conjunto de produtos vendidos em junho de 2008.

MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO TOTAL - jun/08 (R$)
receita total 30.000,00
(-) despesas variáveis (impost + comis) (9.000,00)
(-) custos variáveis (CMV) (15.600,00)
(=) MgC 5.400,00

Isso significa que o conjunto dos produtos vendidos em junho/08 proporcionou uma quantia de R$ 5.400,00 já livre dos custos e despesas variáveis. Essa quantia cobre os custos fixos e gera um lucro antes do IR de R$ 2.300,00, como mostra a DRE.

Podemos também obter a margem de contribuição total de cada produto no mês de junho/08. Para isso, consideramos a receita individual de cada um e descontamos as despesas e custos variáveis individuais. Os impostos e comissões de cada produto são obtidos aplicando suas respectivas alíquotas às receitas geradas por cada produto. A tabela abaixo mostra o cálculo da margem de contribuição total de cada produto para as quantidades vendidas em jun/08.

MgC TOTAL POR PRODUTO - jun/08 (R$)
PERFUME 1 PERFUME 2
receita total 10.000,00 receita total 9.600,00
(-) despesas variáveis (3.000,00) (-) despesas variáveis (2.880,00)
(-) custos var (CMV) (4.000,00) (-) custos var (CMV) (6.000,00)
(=) MgC 3.000,00 (=) MgC 720,00
SHAMPOO 1 SHAMPOO 2
receita total 4.800,00 receita total 5.600,00
(-) despesas variáveis (1.440,00) (-) despesas variáveis (1.680,00)
(-) custos var (CMV) (2.400,00) (-) custos var (CMV) (3.200,00)
(=) MgC 960,00 (=) MgC 720,00

Essas são as margens de contribuição totais de cada produto, para as quantidades vendidas em jun/08. A soma delas é igual à margem de contribuição do conjunto, exibida acima, no valor de R$ 5.400,00. Nesta tabela vemos descontados os custos e despesas variáveis de cada produto. Assim, temos uma noção da participação de cada um na margem total. O perfume 1 contribuiu com 56% da MgC do conjunto vendido no mês de jun/08. Pode-se dizer, com esses dados, que foi o produto que mais teve peso na geração do lucro do mês.

A MgC é uma medida melhor do que a receita na avaliação da importância de cada produto no resultado da empresa. A receita de um produto pode ser muito alta, porém, se este produto tiver custos e despesas muito altos, a MgC será baixa. Isso significa que a receita é "comida" pelos custos e despesas variáveis, sobrando pouco para cobrir custos fixos e geração de lucros. Por isso a MgC é uma medida melhor da importância de cada produto no resultado da empresa.

Além disso, é possível calcular a margem de contribuição unitária de cada produto. Ela é obtida descontando-se do preço de venda o custo variável unitário e a despesa variável unitária. Neste caso, o custo variável unitário é o preço de compra, mas em geral o custo variável unitário é de difícil cálculo. Nos problemas de margem de contribuição e ponto de equilíbrio, normalmente o custo variável unitário é dado. Seu cálculo é um problema específico da contabilidade de custos. A despesa variável unitária, neste caso, é o valor da comissão e dos impostos aplicados ao preço de venda do produto. A MgC unitária pode ser expressa em valores monetários ou em percentual do preço de venda.

A próxima tabela mostra a margem de contribuição unitária de cada produto de nosso exemplo

MgC UNITÁRIA POR PRODUTO (R$)
PERFUME 1 PERFUME 2
preço de venda 25,00 preço de venda 80,00
(-) desp variável unitária (7,50) (-) desp variável unitária (24,00)
(-) custo variável unitário (10,00) (-) custo variável unitário (50,00)
(=) MgC unitária 7,50 (=) MgC unitária 6,00
(=) MgC % 30% (=) MgC % 8%
SHAMPOO 1 SHAMPOO 2
preço de venda 20,00 preço de venda 35,00
(-) desp variável unitária (6,00) (-) desp variável unitária (10,50)
(-) custo variável unitário (10,00) (-) custo variável unitário (20,00)
(=) MgC unitária 4,00 (=) MgC unitária 4,50
(=) MgC % 20% (=) MgC % 13%

Vamos analisar o produto perfume 1 para entender o cálculo da MgC unitária. Seu preço de venda é dado: R$ 25,00. A despesa variável unitária, como já dito, é calculada aplicando-se as alíquotas dos impostos e das comissões ao preço de venda: desp var unit = 0,25 x 25,00 + 0,05 x 25,00 = R$ 7,50. O custo variável unitário também é dado, sendo neste caso o preço de compra do produto = R$ 10,00.

Descontando do preço de venda a despesa ver unitária e o custo var unitário obtemos a MgC unitária, que para o perfume 1 é de R$ 7,50. Isso significa que cada unidade do perfume A vendida gera para a empresa um valor de R$ 7,50 já livre dos custos e despesas diretos do produto. A MgC percentual do perfume 1 é de 30%, o que significa que para cada R$ 1,00 de receita desse produto, R$ 0,30 são gerados como margem de contribuição já livres dos custos e despesas diretos.

Se multiplicarmos a MgC unitária pela quantidade vendida em jun/08 obtemos a MgC total de cada produto. O perfume 2, que tem o maior preço de venda, é o que possui a menor MgC unitária (8%). Isso acontece porque as despesas variáveis são proporcionais ao preço de venda e seu custo variável representa cerca de 63% do preço de venda {(50,00/80,00)x100}, o maior custo variável relativo de todos os produtos.

O estudo dos custos fixos, variáveis e margem de contribuição serve de base para o cálculo do ponto de equilíbrio de um produto ou de uma empresa, assunto que será explorado no próximo artigo.