Brigar ou se proteger?

novembro/2017

Dois comerciais da televisão chamaram minha atenção: o de um plano de saúde, em que uma pessoa fala algo como "é preciso ter certeza que tudo estará bem, sempre", e um outro mostrando uma pessoa que viaja o mundo e quando o perfume acaba, voltará ao Brasil para comprar outro.

Um pequeno esforço de racionalidade mostra que não podemos ter certeza de muitas coisas, especialmente que tudo estará bem sempre, simplesmente porque é uma mentira. No outro caso, é difícil imaginar uma pessoa que viaje o mundo querendo voltar ao Brasil para comprar seu perfume, seria uma demonstração de estupidez. Mas as propagandas exibem isso porque seus anunciantes e produtores acreditam que de algum modo o desejo de consumo pelos produtos e serviços será despertado ou intensificado, e acreditam nisso porque funciona, ou pelo menos tem funcionado. São apenas dois casos entre milhares e milhares na propaganda, envolvendo claras mentiras e apelos emocionais que induzem as pessoas a tomar decisões que seriam descartadas pelo raciocínio.

O que fazer com relação a isso, como reagir? Vejo duas possibilidades: brigar para impor limites ou se proteger e deixar passar, com um valor muito importante em jogo, a liberdade.

Tomar decisões exige esforço, e é muito mais fácil tomar uma decisão e usá-la em todos os casos do que ponderar para tomar a decisão caso a caso em função das circunstâncias. É o que acontece na polarização política, as pessoas não tomam decisões, simplesmente se posicionam de acordo com o seu time. Aplicando isso ao tema em questão, há o time da briga e o time do proteger e deixar passar.

Vejo dois fatores críticos: o nível de disseminação da ameaça e o seu poder de dano. Considero que em geral a reação adequada é se proteger da ameaça sem brigar, pois há uma quantidade enorme de ameaças e brigar consome muita energia, além de ser arriscado. Mas se for uma ameaça muito espalhada, que causa ou com potencial de causar danos graves, a opção brigar se torna necessária.

Há dois casos atualmente, entre muitos outros, de aplicação da reação de briga contra ameaças com os dois fatores críticos presentes: o combate à corrupção no Brasil e o combate ao abuso/violência sexual machista nos Estados Unidos (Weinstein, Spacey, políticos diversos...). Não sei se vão de fato provocar mudanças culturais nessas sociedades, acredito que sim, mas sem dúvida muitas pessoas se uniram para brigar contra ameaças muito disseminadas e com grande poder de dano. Eu concordo com essas reações, há muitos excessos e enganos, mas pela proporção dos problemas e danos causados, a opção de se proteger foi inviabilizada há muito tempo.

No caso das propagandas o problema é disseminado, mas não considero os danos e potencial de danos suficientemente grandes para uma briga de imposição de limites, a liberdade vale mais. Educação, raciocínio e exemplo podem ser usados numa estratégia de longo prazo para proteger as pessoas disso, tornando esse tipo de propaganda ineficiente ou até mesmo prejudicial para seus anunciantes, que naturalmente deixariam de produzi-las, ou pelo menos seriam muito menos comuns. Não penso que o ser humano será plenamente racional, livre de emoções, nem acho que isso seria uma coisa boa. A questão é que somos muito vulneráveis ao domínio da emoção sobre a razão, e isso eu acredito que possa ser mudado e seja uma coisa boa.

Quem pratica um ato é responsável pelo seu ato, mas não é responsável pelo que faz quem age influenciado por esse ato, se não houver imposição de força ou ameaça. A propaganda de mentira e manipulação emocional pode ser benéfica no longo prazo para estimular nas pessoas a defesa contra isso, pois mentira e manipulação emocional não são exclusividades das propagandas.

Mas há um ponto muito delicado nisso: as propagandas direcionadas para as crianças. As tentativas de imposição de limites nesses casos normalmente fracassam, pelo poder de influência corporativo.


Link para interessante texto de um cinegrafista preto da globo sobre o caso William Waack

Chamar alguém de preto(a) não é ofensa racial, exigir o termo negro apenas atiça o racismo. O racismo não está na palavra...

Fiquei chateado quando vi o video, mas a punição deve mirar o ato, a pessoa não pode ser execrada, o que está acontecendo também em alguns dos casos sexuais dos EUA. Execrar quem erra e é pego (há uma multidão que erra e não é pega) serve como mecanismo de defesa para fingir que o problema está somente ali, ou para uma virada de poder.

Aliás, o video deixa claro que o jornalista tentou esconder seu ato falando em murmúrios para que outros não o percebessem, mostrando uma pessoa presa ao próprio racismo e covardia. Isso é mais digno de compaixão que de punição, diferente de quem expressa o racismo abertamente para atacar e diminuir outras pessoas, algo que exige punição forte. Usar a expresão "coisa de preto" como elogio é a melhor resposta.

Demonizar ou endeusar é fácil, já conviver... Há alguns anos, um convidado frequente do programa que o William Waack apresentava na Globo News era o professor Roberto Romano, o que demonstra o interesse do jornalista e dos editores em gerar debates de alto nível. Na Globo News vi entrevista com o historiador Eric Hobsbawn, entre muitas outras, além de reportagens de alto nível, sem contaminação ideológica. Escrevo isso justamente por não ser um fã do Grupo Globo.

link para video de "Black Gold", Esperanza Spalding (já vou avisando, é coisa de preto)

link para texto do prof. Roberto Romano sobre o suicídio do reitor da UFSC e as práticas acusatórias desonestas e sumárias
Obrigado pela luz, professor. Não conhecia o termo sicofanta, o incauto pode pensar tratar-se de uma combinação de bebidas não alcoólicas.