Para não se tornar presa de forças econômicas predatórias

dezembro/2017

"A economia é importante demais para ser deixada apenas com os economistas" - isso já virou clichê, mas principalmente por ser verdadeiro e carecer de aplicação. Vale também para política, direito e medicina, por exemplo. Caso se assuste com a inclusão da medicina na lista, acredito que um enfermeiro dedicado, cuidadoso e preparado possa ser mais importante em um processo de cura do que um médico mal-intencionado, negligente ou despreparado. Além disso, por mais complexa que seja uma situação de doença e as alternativas de tratamento, a decisão final é sempre do paciente.

Muitos pensam a economia como uma ciência natural, com leis e mecanismos independentes, dominada pela razão, mas trata-se de uma área do conhecimento que estuda atividades humanas, essencialmente como o ser humano utiliza os recursos que tem à disposição para satisfazer não apenas suas necessidades, mas também suas vontades, sendo a racionalidade comumente subjugada pelos impulsos e emoções. Não é por acaso que as propagandas são repletas de manipulação psicológica e o custo de exposição nas mídias é alto, pois por trás disso está uma mina de ouro, a geração de demanda ao despertar nas pessoas a vontade de consumo. Somos muito mais consumidores que cidadãos.

A concentração de poder econômico normalmente captura o poder político e enfraquece a democracia. Isso ocorre praticamente no mundo todo e não há por enquanto solução satisfatória para esse problema. Em minha visão, forças econômicas predatórias são aquelas que se utilizam de dominação, manipulação e mentira com finalidade de crescimento e enriquecimento particular, intensificando desigualdades sócioeconômicas em detrimento da escassez de recursos, do bem estar alheio e dos interesses coletivos.

O conhecimento econômico há séculos é utilizado por banqueiros, comerciantes e industriais com a finalidade de aumentar a própria riqueza e poder, mas não é preciso ser economista para entender os conceitos e processos econômicos básicos, utilizando esse conhecimento para não se tornar uma presa.

Muitos se tornam vítimas indefesas porque dependem de um empregador que os contratem para desempenhar uma função específica e ter renda. O desemprego parece um pesadelo interminável, provocando crises e até mesmo tragédias, em nível individual e familiar. Além disso, ficam presos a um padrão de consumo que os faz gastar toda a renda, impedindo que poupem, quando não gera um endividamento insustentável. Nada como o endividamento para dominar uma pessoa, uma empresa ou mesmo um país.

Há várias causas para o desemprego, entre elas: a) as empresas têm a opção de contratar mão de obra mais barata em outros países; b) adoção de novas tecnologias, sejam maquinários ou programação, que simplesmente eliminam postos de trabalho; c) a economia local ou nacional não é suficientemente forte para gerar emprego em nível satisfatório; d) as pessoas não estão devidamente qualificadas para atender à demanda de trabalho.



Conhecimentos e habilidades essenciais

Quais são os conhecimentos e habilidades mais importantes que devem ser ensinados às crianças na educação PÚBLICA? Se não estiver disponível nas escolas, que se procure independentemente, há fontes facilmente acessíveis. As competências gerais da Base Nacional Comum Curricular de dez/2017 têm vários pontos em comum com o que segue.

Autonomia na conquista de conhecimentos e habilidades

O papel do professor é sobrevalorizado, as crianças devem ser sempre estimuladas a conquistar conhecimentos e habilidades por iniciativa própria, a internet está aí para isso e todos podem ser os professores de todos.

Criatividade e resolução de problemas práticos

O sistema de ensino tradicional trata as pessoas como recipientes que serão preenchidos com o conhecimento a ser transmitido pelo professor. Isso está mais falido que loja de locação de DVD. A criatividade precisa ser constantemente estimulada, pensar diferente, perceber problemas - novos e antigos, encontrar soluções diferentes para um problema, ARTE (por mais que a inteligência artificial avance, recuso-me a acreditar que será capaz de produzir arte melhor que um ser humano).

Língua estrangeira

É essencial aprender pelo menos uma outra língua na infância, atualmente o inglês por ter o maior alcance. Isso amplia o domínio para conquista de conhecimentos e habilidades e expande o universo cultural.

Programação e lógica

Eu quero ser engolido por um computador ou fazer com que ele me obedeça? O desafio é tão grande que até isso está em risco com a inteligência artificial, pois as máquinas não obedecerão uma programação determinada previamente pelo programador, mas serão capazes de aprender como realizar tarefas autonomamente, o que aliás já ocorre, mas em fase inicial, até onde chegará isso é imprevisível. Atualmente no Brasil há déficit de trabalhadores em programação e tecnologia da informação, o desemprego seria menor se houvesse pessoas qualificadas nessa área.

Economia

Noções de escassez de recursos, desejos e necessidades, racionalidade e impulsividade, economia doméstica e comunitária, renda e poupança devem ser ensinadas às crianças. Economia e Psicologia estão intimamente ligados. Desenvolvimento econômico e proteção do meio ambiente não são forças opostas, pois se economia é utilização de recursos para satisfação de desejos e necessidades humanas, a preservação dos recursos naturais e da biodiversidade é economicamente essencial. O conflito entre economia e meio-ambiente existe em função de uma atitude econômica predatória e autodestrutiva, que visa maximização de riqueza em curto prazo.

Ética e cidadania

Existe uma atitude dominante que estimula as pessoas a ganhar a vida a qualquer preço sem se preocupar com outras pessoas, deixando de lado valores básicos que devem servir como princípios e limitadores de nossas ações. Noções de cidadania sem contaminação ideológica devem ser transmitidas desde cedo, como relação do sujeito com o Estado, poder e dominação, preconceito, solidariedade, miséria e exclusão social.

Meditação e consciência emocional

Importantes para não se tornar escravo dos sentidos e prazeres fugazes, bem como para estimular bem estar, felicidade e realização pessoal sem vinculação direta com bens materiais. Equilíbrio emocional, redução de ansiedade, energia concentrada, saúde física e mental são alguns dos benefícios gerados pela meditação e consciência emocional, além da proteção contra o ataque de manipulação psicológica que sofremos constantemente pelas propagandas e veículos de comunicação.



Fortalecimento econômico do indivíduo e da comunidade

Vejo quatro frentes de atuação para se fortalecer e proteger da selvageria econômica:

  1. Ampliar as possibilidades de geração de renda
  2. Mais conhecimentos, habilidades e experiência resultam em mais chances de se empregar e ter renda. Mas o mais importante é ser autônomo, não depender de empregadores. De que as pessoas precisam e eu sei fazer bem? As respostas a essa pergunta são oportunidades de geração de renda.

    O empreendedorismo segue esse caminho e age beneficamente na distribuição de renda e geração de emprego, mas é arriscado e exige preparo, planejamento e dedicação.

  3. Diminuir a necessidade de renda para satisfação de necessidades e vontades
  4. Isso é importante sempre, mas principalmente em fases de crise, quando a renda cai substancialmente. Grande parte do nosso consumo é desnecessário e impulsivo, não é difícil reduzir os gastos adotando critérios claros de consumo, seja em alimentação, moradia, transporte e lazer, por exemplo. Aprender a cozinhar, a fazer reparos domésticos, pintar a própria casa, por exemplo, aumentam a qualidade de vida e reduzem os gastos simultaneamente. A condição de desemprego deve pelo menos ser aproveitada para aprendizagem, não há impedimentos para isso, é possível aprender essas e muitas outras coisas gratuitamente utilizando a internet, basta vontade e dedicação. Há muito conteúdo de qualidade disponível.

    Autoestima e equilíbrio emocional ajudam nesta tarefa, além da consciência de que estamos sendo constantemente bombardeados por propaganda e outros estímulos influenciadores que manipulam nossos padrões de consumo. Preciso ter para ser?

  5. Cuidado com o endividamento
  6. O endividamento pode ser muito útil para estimular o crescimento econômico geral da sociedade e para que os indivíduos e famílias melhorem o seu padrão material de vida, mas há perigos. Primeiramente, o Brasil é um país dominado por um oligopólio de bancos, representam o setor da economia com mais influência sobre o governo e que mais contribuem para a desigualdade econômica, apesar das propagandas maravilhosas e repletas de mensagens positivas... O nível das taxas de juros para operações de crédito no Brasil é injustificadamente alto - as taxas de cheque especial e cartão de crédito são ridículas.

    Além disso, ao oferecer um financiamento imobiliário, boa parte das construtoras e instituições financeiras não estão muito preocupadas se o comprador terá condições de honrar os pagamentos, porque no caso de inadimplência o imóvel será recuperado e revendido, a perda é toda do comprador, pois os valores pagos na entrada e parcelas do financiamento é consideravelmente superior ao que gastaria com o aluguel de um imóvel semelhante. Isso é muito grave nos EUA, mas é uma prática comum no Brasil.

    Muitas pessoas se complicam com endividamentos porque querem dar saltos maiores do que podem, seja com automóveis, imóveis, equipamentos eletrônicos, diversão ou gastos cotidianos. Em grande parte isso ocorre devido causas psicológicas e emocionais, porque se quer passar uma imagem falsa de abundância e sofisticação ou porque a felicidade e realização pessoal dependem de conquistas materiais que rapidamente perdem o efeito.

    É preciso um planejamento mínimo dos gastos regulares para compatibilizar gastos e rendas, inclusive para gerar poupança. Em endividamento de longo prazo, deve-se ter uma proteção para períodos em que a renda cai, como poupança e alternativas de geração de renda. Ao se contrair uma dívida os pagamentos são certos e obrigatórios, mas a renda necessária para cobrir esses pagamentos não é certa nem obrigatória, ou seja, você não tem a certeza de que terá sempre tua renda e o empregador não tem a obrigação de manter o teu emprego ou teus clientes a obrigação de comprar de ti - no caso de um autônomo ou empresário, mas com o endividamento haverá a certeza e a obrigação de que terá de fazer os pagamentos, pois se não pagar terá problemas.

  7. Agregação comunitária e economia solidária